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Sábado, 9 de Abril de 2005

- Os homens desejam as mulheres que não existem



OS HOMENS DESEJAM AS MULHERES QUE NÃO EXISTEM


  


E
stá na moda - muitas mulheres
ficam em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pêlos pubianos
nos salões de beleza. Ficam penduradas em paus-de-arara e, depois, saem
felizes com apenas um canteirinho de cabelos, como um jardinzinho
estreito, a vereda indicativa de um desejo inofensivo e não mais as
agressivas florestas que podem nos assustar. Parecem uns bigodinhos
verticais que (oh, céus!...) me fazem pensar em... Hitler.

Silicone, pêlos dourados,
bumbuns malhados, tudo para agradar aos consumidores do mercado sexual.
Olho as revistas povoadas de mulheres lindas... e sinto uma leve
depressão, me sinto mais só, diante de tanta oferta impossível. Vejo que
no Brasil o feminismo se vulgarizou numa liberdade de "objetos", produziu
mulheres livres como coisas, livres como produtos perfeitos para o prazer.
A concorrência é grande para um mercado com poucos consumidores, pois há
muito mais mulher que homens na praça (e-mails indignados virão...) Talvez
este artigo seja moralista, talvez as uvas da inveja estejam verdes, mas
eu olho as revistas de mulher nua e só vejo paisagens; não vejo pessoas
com defeitos, medos. Só vejo meninas oferecendo a doçura total, todas
competindo no mercado, em contorções eróticas desesperadas porque não têm
mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil; já
expuseram o corpo todo, mucosas, vagina, ânus.


O que falta? Órgãos
internos? Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares?
Querem nos humilhar com sua beleza inconquistável? Muitas têm boquinhas
tímidas, algumas sugerem um susto de virgens, outras fazem cara de
zangadas, ferozes gatas, mas todas nos olham dentro dos olhos como se
dissessem: "Venham... eu estou sempre pronta, sempre alegre, sempre
excitada, eu independo de carícias, de romance!..."


Sugerem uma mistura de
menina com vampira, de doçura com loucura e todas ostentam uma falsa tesão
devoradora. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito,
mas posam como imaginam que os homens as querem.


Ostentam um desejo que não
têm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a não
incomodar com chateações os homens que as consomem.


A pessoa delas não tem mais
um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro
dele.


Mas, que nos prometem essas
mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um
paraíso de mercado, último andar de uma torre que os homens atingiriam
depois de suas Ferraris, seus Armanis, ouros e sucesso; elas são o
coroamento de um narcisismo yuppie, são as 11 mil virgens de um paraíso
para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem
paisagens?


Outro dia vi a modelo
Daniela Cicarelli na TV. Vocês já viram essa moça? É a coisa mais linda do
mundo, tem uma esfuziante simpatia, risonha, democrática, perfeita, a
imensa boca rósea, os "olhos de esmeralda nadando em leite" (quem escreveu
isso?), cabelos de ouro seco, seios bíblicos, como uma imensa flor de
prazeres. Olho-a de minha solidão e me pergunto: "Onde está a Daniela no
meio desses tesouros perfeitos? Onde está ela?" Ela deve ficar perplexa
diante da própria beleza, aprisionada em seu destino de sedutora, talvez
até com um vago ciúme de seu próprio corpo. Daniela é tão linda que tenho
vontade de dizer: "Seja feia..."


Queremos percorrer as
mulheres virtuais, visitá-las, mas, como conversar com elas? Com quem?
Onde estão elas? Tanta oferta sexual me angustia, me dá a certeza de que
nosso sexo é programado por outros, por indústrias masturbatórias, nos
provocando desejo para me vender satisfação. É pela dificuldade de
realizar esse sonho masculino que essas moças existem, realmente. Elas
existem, para além do limbo gráfico das revistas. O contato com elas
revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas mas, se elas
pudessem expressar seus reais desejos, não estariam nas revistas sexy,
pois não há mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes,
aspirando por namoros ternos. Nas revistas, são tão perfeitas que parecem
dispensar parceiros, estão tão nuas que parecem namoradas de si mesmas.
Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralar nos
haréns virtuais inventados pelos machos. Elas têm de fingir que não são
reais, pois ninguém quer ser real hoje em dia - foi uma decepção quando a
Tiazinha se revelou ótima dona de casa na Casa dos Artistas, limpando tudo
numa faxina compulsiva.


Infelizmente, é impossível
tê-las, porque, na tecnologia da gostosura, elas se artificializam cada
vez mais, como carros de luxo se aperfeiçoando a cada ano. A cada mutação
erótica, elas ficam mais inatingíveis no mundo real. Por isso, com a crise
econômica, o grande sucesso são as meninas belas e saradas, enchendo os
sites eróticos da internet ou nas saunas relax for men, essa réplica
moderna dos haréns árabes. Essas lindas mulheres são pagas para não
existir, pagas para serem um sonho impalpável, pagas para serem uma
ilusão. Vi um anúncio de boneca inflável que sintetizava o desejo
impossível do homem de mercado: ter mulheres que não existam... O anúncio
tinha o slogan em baixo: "She needs no food nor stupid conversation." Essa
é a utopia masculina: satisfação plena sem sofrimento ou
realidade.


A democracia de massas,
mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece "libertar" as mulheres.
Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade ignorante como a
nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionadas numa
exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor
e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado
da liberdade". É isso aí. E ao fechar este texto, me assalta a dúvida:
estou sendo hipócrita e com inveja do erotismo do século 21? Será que fui
apenas barrado do baile?


ARNALDO
JABOR


 
Viver Livremente editou às 23:23
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