Domingo, 14 de Agosto de 2005

- Sonho






Sina

Simone Salles


I

Não me sinto Poeta,

nem mesmo cronista,

que dirá escritora.

Tão-somente escrevo.

Tudo aquilo que explode

e por dentro me implode.

Torna-se imperativo,

imprescindível, então,

rascunhar, escrever.

Submissa, obedeço.

Catarse, exorcismo, 

digito Palavras na tela.

Se, rebelde, não o fizer,

morro asfixiada por Elas.


II

Inveja é o que sinto dos que

escolhem temas, assuntos.

Falam de tudo um muito.

Princípios profundos,

certezas inabaláveis,

verdades absolutas,

opiniões inquestionáveis.

Pétreos, monolíticos,

nada os agita ou abala.

O mundo, o Ser, a Vida?

Mistérios desvendados.

Questões assentadas.

Enigmas resolvidos.

Equações sem incógnitas.

Qual brincadeira de criança,

basta dar o mote, o tema.

Como num passe de mágica,

eis que das cartolas surgem 

crônicas, contos, poemas

romances, artigos, análises

e até monografia polêmica.


III

Comigo, dá-se o inverso.

Contraditória, fragmentada, 

sei nada de coisa alguma.

De mim, opiniões fogem.

Certezas, juízos, pré-conceitos?

Não as tenho. Nunca os tive.

Verdades eternas, incontestáveis?

Quando muito, duram segundos.

Assuntos? Idéias? Temas?

O que compreendo deles?

Apelo para o sobrenatural:

vaticínios, profecias, vidências. 

Minha aritmética existencial

foi-é subversiva e subvertida.

Nada vezes nada tanto pode ser

igual a tudo ou igual a nada.

A geometria da Vida, em mim,

ganha outras formas, dimensões.

Retas são cortadas por curvas,

ora côncavas, ora convexas,

ligam o nada à coisa nenhuma.

Paralelas, insanas, cruzam-se.

Não aguardam, pacientes, o infinito.

Aos que, porém, duvidam, afirmo.

Há coerência em minha incoerência,

pois que sou assim: caleidoscópica,

visionária, utópica, metamorfósica.

Equilibrista, arrisco-me sobre o

abismo entre sanidade e loucura.

 


IV

Talvez, por tudo isso, seja assim.

Palavras, em mim, surgem.

Elas chegam, se impõem.

Vêm e vão a seu bel-prazer,

sempre à minha revelia.

Nunca pediram licença

ou solicitaram permissão.

Por instantes Delas cativa,

obrigada sou a escrever.

Sobre o quê? Elas determinam.

Se quero falar de liberdade,

Elas ditam melancolia e dor.

Se tomada sou pela ansiedade,

Delas brotam flor, afeto, amor.

Se urgente é sublimar a realidade,

invadem-me em cansaço e dor.

Quando o desejo maior é sorrir

em soluços, profusão de lágrimas,

Elas inundam minha face marcada.


V

Quando Delas, por fim, me liberto,

torno-me oca, no vácuo desorientada.

As Palavras partem como chegam.

Sem qualquer simulacro de despedida 

hasta la vista, au revoir, bye, adeus

Levam o que havia de melhor em mim

Deixam-me muda, vazia, desabitada. 

O que fazer com tamanha liberdade,

se Delas sou serva, refém, escrava?

Ficamos imóveis, inertes, a espera...

Eu e meu carcereiro: o nada.


Viver Livremente editou às 22:58
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